Um ano depois…

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Inês Pina: Colaboradora Dão e Demo

Por: Inês Pina

Há um ano acordava com cheiro a fumo e com o coração apertado. Lembro-me que quando o despertador tocou estava de olhos abertos, sem vontade de dormir, mas com uma vontade anormal de permanecer quieta. Estava angustiada, assustada, triste, devastada.

Fora Pedrógão e depois o meu interior.

Outubro, o mês das primeiras chuvas, trouxe um manto negro à minha volta. Pedrógão deixou-nos a todos devastados e indignados. Pensámos que seria uma vez sem exemplo e logo a seguir levámos com mais uma catástrofe.

Lembro-me da densidade do fumo à minha volta. Lembro-me dos semblantes pesados, lembro-me das conversas pesarosas. Conhecia os locais, conhecia as pessoas.

Na época estava assim e não era para menos, deflagraram cerca de 500 focos de incêndio que lavraram quase sem controlo em sete concelhos da região Norte e em 32 na região Centro. Talvez tivessem sido as imagens de Pedrógão, e do elevado número de vítimas calcinadas numa estrada a fugir do fogo que evitou que o número de vítimas mortais fosse maior. Contudo morreram 50 pessoas e arderam vários milhares de casas. Foram afetadas 430 empresas e ficaram quase cinco mil postos de trabalho em risco.

Isto é um grande abalo. O interior não é avantajado de oportunidades como o litoral, somos um tanto parentes pobres de um país inclinado. Porém, somos resistentes e batalhadores. Quem vive no interior, ama o interior. É feliz a sentir na pele a mudança das estações que vão emoldurando o nosso quotidiano.

Não sei se a discriminação positiva que se tem vindo a implementar trará frutos. Pois, frutos é o que já anda a colher por estes lados. Devagarinho vai-se erguendo, edificando. A mágoa está lá, a dor está lá, mas também está a força e a obstinação. Recomendo que se leiam os relatos de várias situações aqui.

Temos muito a aprender, sou da opinião que uma catástrofe só tem algo a reter: uma lição. Que se honre quem se ergue neste vazio e quem perdeu a vida, com mudanças de atitudes, com medidas proativas e uma consciencialização generalizada.

Hoje dia 14 de outubro de 2018 já choveu, já fomos afetados por uma tempestade e supostamente temos as matas limpas. Quer o ano passado, quer este ano. Não ardeu rigorosamente nada no Travassinho. O que é ótimo. Grande problema, há matas por limpar, caminhos por abrir. Isto não é só sobre os outros, nem só aos outros. Temos de ser todos envolvidos na mudança de hábitos.

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