Um passado muito presente.

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Ana Nunes - Colaboradora Dão e Demo.

Por: Ana Nunes

Não me considero muito velha, mas hoje, ao ver a minha mãe de 80 anos a falar por Skype ou a opinar nas redes sociais, constato que pouco mais de duas décadas se passaram no que denominamos de “interior”, cujo no passado recente referenciávamos “província “. Não importando qual a designação dada, o certo é que também no terreno muita coisa mudou!

Por estas zonas provincianas era muito bem aceite que às mulheres coubesse o controlo e a gestão doméstica, assim como também era da responsabilidade da mesma todo o trabalho de orientação e educação do agregado familiar.

Desde muito novas, as meninas eram “treinadas” nas lides domésticas, a controlar o pequeno orçamento que dispunham, muitas vezes adquirido em simples e elementares trabalhos esporádicos que iam fazendo, bordados, rendas, croché ou outros, designados de trabalhos de “mãos”.

Acrescentavam a estes magros rendimentos, as ofertas recebidas pelos dias de festividades, nas datas de aniversário, ou por agradecimento de algum trabalho reconhecido, organizando assim um tradicional “pé-de-meia”.

Era o acrescento ao enxoval!

Desde cedo, eram estas economias que, bem geridas, faziam face às suas despesas, pois, como replicavam as suas mães, “professoras de gestão doméstica”, estas pequenas reservas económicas iriam dando para os seus “botões”.

Verdade, porém, que algumas dessas jovens, nesses tempos, tinham imperiosamente de trabalhar muito duro nos campos, contribuindo com o seu laboro, para ajudar a sustentabilidade familiar, cujo agregado era formado, à época, por 10 ou mais elementos.

Outras, muito novinhas, quase crianças, pelo excesso de bocas a alimentar lá por casa da família, amparavam-se nas residências mais folgadas das madrinhas, professoras ou lavradoras abastadas, que em troca de alguma comida e proteção, as apontavam socialmente como “damas de companhia”, mas que na maior parte das ocasiões não passavam de empregadas domésticas a que era corriqueiro designar-se de “sopeiras” ou “criadas de servir”.

Desempenhavam estas mocinhas muitas das vezes trabalho quase escravo sem remuneração nem liberdade de movimentação.

Acabavam por casar cedo, fugindo dos regimes e regras ditatoriais impostas pelos donos dessas residências. Adquirindo uma liberdade relativa, mas por lá continuavam a servir.

O analfabetismo ainda era bem comum pela década da minha geração, no interior. Aprendiam algumas destas meninas a redigir algumas frases com muita dificuldade, não por complexidade de aprendizagem, mas porque estavam constantemente a faltar às aulas, e, assim, os seus conhecimentos académicos pouco iam além de assinar o nome, efetuar trocos, ou contar uns trocados armazenados na caixa da farinha.

Algumas pouco frequentaram a escola, pois tinham que desempenhar o papel de amas dos irmãos mais novos, para que as suas mães pudessem contribuir na ajuda tão necessária do sustento familiar.

O marido, assim como todos os filhos que produzissem, entregavam às esposas ou às mães a totalidade do dinheiro que recebiam pelo seu trabalho, cabendo à mulher da casa a responsabilidade da gerência do montante que todos os elementos contribuintes do agregado familiar lhe disponibilizavam.

Eram também estas que faziam as contas num caderno ou agenda própria, que controlavam as despesas, faziam as poupanças, davam “luz verde” para os investimentos, enfim, controlavam o orçamento disponível da família com “mão de ferro”!

As meninas que seguiam carreiras profissionais eram poucas por estes lados, geralmente estavam estes percursos ligadas à saúde ou educação. Tinham algumas condicionantes, exemplo flagrante era o das professoras não se poderem casar com pretendentes que não possuíssem rendimentos iguais ou superiores aos delas.

Nunca tal imposição legal foi por estes lados contestada por nenhuma das intervenientes, devido às limitações democráticas da altura e também porque raras eram as jovens da zona que, quando terminavam o ensino básico, davam seguimento a estudos universitários.

Casavam cedo, geriam o lar, criavam os filhos, ajudavam e apoiavam as atividades económicas dos maridos. Outras havia que optavam por não constituir família (tradicionais solteironas), para terem maior disponibilidade de assistirem os parentes, (avós, pais, irmãos), nos quais se apoiavam até à morte destes, por falta de recursos.

A imigração e, posteriormente, a revolução de Abril, geraram uma época de desestabilização, com os devidos excessos e ajustamentos de toda forma de ser e estar, perante a sociedade da época.

Se a escolaridade das mulheres a partir daí aumentou, também podemos constatar que começaram a revindicar outras justas pretensões e, toda esta estrutura familiar, na forma como a conhecíamos, ruiu!

As mulheres de hoje, escrevem, leem e têm uma intervenção participativa na vida social e política, mais do que fazem renda ou croché. Vão mais à academia ou fazer caminhadas do que sachar ou mondar. As merendas já são oferecidas em casa, compartilhando as tarefas.

Presentemente, no meio académico, a mulher está de forma igualitária com o homem, sendo o acesso ao ensino superior procurado por mais alunos do sexo feminino do que masculino. A nível de aproveitamento também estas vão superando os seus colegas rapazes.

A nível familiar continuam a ter um papel predominante na gestão do lar e na educação dos filhos, apesar de uma forma mais compartilhada com os parceiros.

São donas do seu destino e, tanto quanto possível, realizam-se pessoalmente e profissionalmente. Infelizmente ainda existem várias assimetrias que necessitam de ser limadas, como o direito a empregos justos e compatíveis com as suas habilitações, assim como salários iguais aos seus parceiros do sexo masculino.

Num estudo elaborado pela “Pordata”, um projeto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, com informação estatística sobre a sociedade portuguesa relativa aos anos de 2016 e 2017, entre outros dados, observamos que as mulheres portuguesas representam 53% da população, 88% das famílias monoparentais, 54% do total de doutoramentos e 49% da população empregada, mas também 54% da população em risco de pobreza ou 51% dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção.

A nível de tecnologias, lá as vão dominando. São fãs das redes sociais! É um gosto encontrar, mesmo por esta feição, nas redes sociais, antigas amigas, colegas e conhecidas, que de uma forma tímida, vão tentando comunicar desta maneira, o que torna sem dúvidas, as redes sociais, mais um ponto de referência neste “volte face” dos tempos que correm!

É caso para parafrasear Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…”.

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4 COMENTÁRIOS

  1. Ao ler este “artigo” da Ana Nunes (Dra) eu estava a ver o retrato das raparigas e mulheres da minha aldeia, no meu tempo de rapazinho e juventude. Note-se, no entanto: os rapazes nesse tempo, também não tinha, horizontes de futuro. É inegável que muita coisa mudou para melhor. Mas é também inegável que há valores que se perderam. Não por culpa da “emancipação” da mulher, que sempre considerei “companheira” e em união com o marido e com a sociedade em que estava inserida num patamar de igualdade e dignidade . No meu tempo, as mulheres começaram a ter a alternativa do operariado têxtil que foi uma “libertação” da sua condição, quase que por fatalidade social, da sua “condenação a ser “sopeira” ou “criada de servir” até surgir a “categoria” de “empregada doméstica”. Os meus parabéns à Ana Nunes(Dra) pelo seu artigo bem estruturado .

  2. Muito obrigada pela sua abordagem, a qual considero deveras pertinente. Nos centros rurais mais desenvolvidos, a “emancipação ” das mulheres deu-se mais cedo, mas mesmo assim , as coisas continuaram a ser problemáticas. Os salários eram pequenos, e muito desiguais. As mulheres ganhavam metade do salário de um homem em trabalho igual. Ainda hoje em várias tipologias de trabalho, perdura essa diferenciação.

  3. Muito agradecida pelo seu comentário que acho deveras pertinente. Realmente, nas zonas rurais mais próximas dos grande centros, a “emancipação” começou mais cedo, mas também não da melhor maneira. Essas senhoras (operárias têxteis ), eram muito mal pagas pelo trabalho que efectuavam, chegando a ganhar metade do que usufruíam os seus colegas masculinos pelo mesmo trabalho executado. Em algumas situações laborais essa forma de actuar ainda se mantém.
    Portugal é dos países onde as mulheres mais trabalham fora de casa. Daí que é natural que outros valores se ganhem em deterioramento daqueles que se perderam.
    É a evolução dos tempos!

  4. Ainda sobre a “emancipação da mulher”.
    Quando operariado começou -e vou referir-me à nossa zona do vale do Ave, desde o meu tempo de rapzinho e sobretudo nesse, já nas margens do rio Ave havia muitas fábricas têxteis, com enormes e altíssimos canudos dos fornos das caldeiras. Era uma “sinfonia” no seu som monocórdico de trovão ou de sirene dos bombeiros, daquelas “sarroncas” que vomitavam um “uuuUUU!… Comprido. Tocavam às 7.45H da manhã e às 8.00H; depois, às 11.45H e 12.0HH; depois às 12.45H e 13.00H. Depois, às 16.45H e 17.00H.Ou seja: sempre um quarto-de-hora antes da entrada como da saída. E o povo das sirenes dos canudos das fábricas passou a fazer o seu relógio. Isso e as horas da passagem do comboio da linha do caminho-de-ferro da “Trofa a Fafe”.
    Isto, a propósito de quê? do quanto ganhavam as mulheres em relação aos homens. Uma realidade que só quem a viveu nesse tempo, a conhece “por dentro” e das dificuldades para as mulheres terem emprego nas fábricas têxteis.
    A minha mãe, quando conseguiu emprego numa, trabalhava seis dias e só recebia três! Mas quem diz a minha mãe, poder-se-ia dizer o mesmo também de alguns homens. E tanto uma como os outros, semanas havia em que tinham de regressar a casa por não haver trabalho para todos.
    Nesse tempo, ainda não havia a possibilidade – nem liberdade – da reclamação dos “direitos dos trabalhadores” nem do “abaixo os patrões!”, nem as ameaças de greve. Naquele tempo, havia a fuga à fome ( algum dos “lutadores das lutas de classe” saberá o que é haver fome nos dias de hoje, onde tanto se esbanja e estraga? e o sentido de “gratidão por quem dava trabalho e não emprego”. Estou apenas a compara situações. Nem defendo o passado, nem ataco o presente. O “patrão” era uma pessoa abençoada. Hoje, o patrão é um “explorador” no conceito sindicalista. Uma coisa é certa.
    Qualquer um pode ser patrão. É só arriscar. Constato apenas as situações. Se então não era tudo bom, hoje também é assim: nem tudo é bom. Porém, dantes vivia-se na fome. Hoje desperdiça-se na fartura. E então, imagine-se como seria pelas “terras do demo” onde o diabo só semeou calhaus .
    A fartura também estraga. Aqui nos meus lados, foi dado “emprego” a uma determinada pessoa mas… a 1,5Km de distância. Pessoa que andou a mendigar emprego na área que apenas lhe convinha . NO primeiro dia de trabalho, porém, não apareceu. E do outro lado telefone foi-lhe lembrado que era o seu primeiro dia de emprego. E logo essa pessoa: “Agora! Mandem um táxi a casa, se querem! Acham que eu vou caminhar quilómetro e meio para ir para aí?!Nos transportes públicos havia de meia em meia hora um autocarro. Um “emprego” que era numa escola para”auxiliar de educação”. Ficou logo sem emprego e ainda hoje anda a ver se alguém, lhe traz o ordenado a casa. Na “fartura de hoje” mesmo depois da crise dos têxteis que “rebentou” com quase todas as empresas , por estes lados, primeiro exige-se e depois vai-se para o “emprego” mas não para o trabalho. No meu tempo de menino, nós rapávamos as migalhas da gaveta da mesa e da masseira. E bocadinho de pão que caísse ao chão, a gente apanhava-o e beijava-o. Hoje, é um “pecado” tamanho desperdício de alimento que até aos cães famintos é negado.
    Nunca se está bem!
    Isto, prezada Dra Ana , sem qualquer intenção de tirar mérito à sua opinião. Antes, para a reforçar comparando o “ontem” e o “hoje”, aqui para os nossos lados.

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