Uma caravana de pessoas

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Inês Pina: Colaboradora Dão e Demo

Por: Inês Pina

“O que sabemos/vemos são crianças sem culpa a deambular pelas estradas desgastadas por uma rota que adultos definiram.”

A 12 de outubro um grupo de 160 pessoas resolveu partir das Honduras, concretamente da cidade de San Pedro Sula. Juntaram-se num terminal Rodoviário para fazer uma viagem de grupo. O objetivo era obter proteção face aos contrabandistas e grupos armados. Tudo isto, muito semelhante às nossas peregrinações a Fátima. Um grupo de pessoas que se junta para concretizar um objetivo.

A questão não ficou por ali. O que poderia ser mais uma viagem ganhou contornos diferenciados. Em parte, pela partilha no Facebook desta jornada. E ainda pelo destaque que este movimento teve nas últimas eleições americanas. Trump, atacou a caravana e disse perentoriamente que negaria asilo a todas as pessoas. Mais, enviou quinze mil militares para a fronteira entre o México e os EUA. Quinze mil foi o mesmo número de militares que foram enviados para o Afeganistão! Ah, pois Trump a agir é sempre em grande.

Para este grupo, este é o mal menor. Passar a fronteira através de contrabandistas custa 6,570 mil euros! Dinheiro que não têm!

Neste momento, a caravana tem um número ainda indefinido de pessoas, mas estima-se que sejam atualmente nove mil pessoas. O grande objetivo deste grupo é procurar asilo e trabalho nos EUA.

Basicamente é uma cidade ambulante! Já nasceram bebés e já morreram pessoas. Fazem assembleias noturnas para decidir para onde vão. Esperaram autocarros, suplicaram-nos. Contudo ninguém lhos deu. No entanto, o grupo não cedeu e hoje já está às portas de Tijuana. O grupo foi tendo quebras, dividindo-se. Fala-se numa greve de fome.

Sabemos que estas pessoas partem das Honduras e fogem da violência. Este é o mote do grupo, se fogem da violência, não querem gerar violência.

O que sabemos/vemos são crianças sem culpa a deambular pelas estradas desgastadas por uma rota que adultos definiram. Somos espetadores de uma realidade distante e dura. Não acredito que as pessoas se lancem nesta jornada sem que haja desespero. É óbvio que o efeito grande grupo deu força, mas os primeiros a partir não imaginaram estas proporções. Partiram com esperança de algo melhor.

Também compreendo que as cidades não estejam prontas para responder a estas necessidades humanas. Vemos um amontoado de “tendas” nas estradas de gente que esbarrou numa fronteira e procura uma resposta.

Que resposta?

“O presidente da Câmara de Tijuana, no México, acaba de declarar que ‘a cidade está mal preparada para lidar com todos estes migrantes [e que] a acumulação pode durar seis meses’. Da mesma forma, os EUA estão mal preparados para esta invasão, e não vão suportar isto. Eles estão a causar crime e grandes problemas no México. Vão para casa!”, escreveu Trump.

Será esta a resposta que queremos ouvir de um líder internacional?

As vagas de migrações não são únicas no mundo. A história está repleta delas. Sabemos que são difíceis de gerir, principalmente para os recetores. Convenhamos que não podemos é baixar os braços, ou simplesmente sacudir toda a gente de onde nos incomoda.

Provavelmente os media vão abrandar a cobertura do caso. As “tendas” estão montadas e as pessoas vão ficar à espera. Que podem elas esperar?

Há sempre manifestações contra os migrantes. Em parte, porque nos sentimos ameaçados. Ameaçados pela proximidade de uma realidade que nos amedronta. Porque eles nos olham nos olhos e não os vemos pela televisão. Porque quando vemos um país em guerra somos unânimes a desejar-lhe tudo de bom. Somos peritos em oferecer-lhes apoio, porque a tela da televisão é deveras protetora da nossa intocável realidade.

Importa os líderes intervirem. Nenhum país quer ser “invadido” de quando em vez por um grupo de nove mil pessoas que precisa de tudo! Vejamos a época dos retornados em Portugal (e eram portugueses). Agora, o que não nos podemos permitir é que haja desumanidade. Para que servem cimeiras, conferências, fóruns mundiais? Para inglês ver? Ou para desenhar uma estratégia concisa para estas situações que têm vindo a afetar os países ocidentais.

Este é um caso onde a política deveria/deve agir de forma perentória. Caso contrário para que esta serve? Para ser apenas um fantoche do poder económico?

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