Uma espécie de rigor

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Vítor Santos - Colaborador Dão e Demo

Por: Vítor Santos

Os tempos mudaram. Criou-se uma liga profissional com a missão de “garantir a excelência da organização das competições profissionais, assegurando receitas comerciais para o efeito” e que tem como valores “rigor, talento, profissionalismo e agregação”, bem como a visão de “mudar o paradigma atual, com a criação de um modelo de negócio mais rentável, com capacidade de despertar mais interesse dos média e atrair mais investidores”! Pois isto não é humor. Foram estes os propósitos para a criação da liga profissional. Qualquer semelhança com a realidade será mesmo uma mera coincidência.

Ilustração de Paulo Medeiros

Saudades do campeonato nacional de futebol. O país aí agregava-se e comparecia nos espetáculos, principalmente nos jogos que recebiam as principais equipas da competição. Bons tempos em que os “grandes” tinham de percorrer o país e transpirar muito para serem campeões nacionais. Os campos pelados, as estradas sinuosas e o bairrismo eram sempre dificuldades acrescidas para os visitantes. Era sempre uma ansiedade e os jogos eram intensamente vividos pelas comunidades locais. Nem tudo era perfeito. Evoluiu-se em muitas coisas, mas perdeu-se o mais importante: a participação desportiva.

“O campeão hoje não é nacional. É o vencedor de uma liga de clubes que privilegia clubites”…

Atualmente, com raras exceções, a competição realiza-se no litoral e está concentrada nos grandes centros populacionais. O fosso aumenta cada vez mais entre litoral e interior. O campeão hoje não é nacional. É o vencedor de uma liga de clubes que privilegia clubites, egos de simples adeptos que se tornam protagonistas através do comentário desportivo e que multam mascotes e “tratadores” de relva!!!! Ridículo.

A televisão começa a desinteressar-se pelo futebol jogado. O jogo em si, com exceção dos 3 grandes, não vende. É caro e não tem audiência. Os programas de entretenimento desportivo falado sim. Ninguém quer ver espetáculos que não têm público. A afluência a um espetáculo é barómetro do seu interesse e/ou qualidade. Os jogos em Portugal não entusiasmam e as modalidades têm vindo a perder atletas e adeptos muito pelo efeito sistémico do afastamento do desporto real dos portugueses. Se não movimenta a comunidade local, muito menos o resto do país.  E quando a oportunidade surge altera-se o local do jogo. Afasta-se o público. A Taça de Portugal é um bom exemplo do mau serviço que se prestou ao desporto, aos pequenos clubes, aos adeptos das pequenas localidades.

Porto, Benfica e Sporting vivem num mundo à parte e a participação tão elogiada na Liga dos Campeões só serve para estes clubes poderem ter mais dinheiro para gastarem sem critérios e continuarem a ter passivos astronómicos. Hoje esta competição já é transmitida por uma plataforma internacional e para quem pode pagar. A verdade é que quem paga e gosta de futebol vai optar por ver as grandes equipas internacionais, que proporcionam grandes espetáculos. Quem pode escolher e percebe o que é o jogo não vai deixar de ver um Barcelona, Liverpool, Real Madrid, Bayern de Munique para assistir a jogos de clubes que ambicionam apenas chegar a uns quartos de final!!!!

Quem gere o dinheiro e o desporto tem de refletir se vale a pena continuar a investir, nos mesmos moldes, no desporto local se as pessoas não aderem. Se ficam no sofá a ver os clubes de Lisboa e Porto a nível nacional e os “colossos” europeus a nível internacional?! Cada vez mais somos adeptos de sofá e só Lisboa e Porto têm direito a ter desporto de Alta Competição. O país “vendeu-se” a três clubes e a sedentarização ajuda ao consumo destes jogos de entretenimento. Os clubes “pequenos” não se impõem e vão na onda.

Jogos em dias de semana, à noite, servem a quem?! Os clubes que participam nas competições europeias que se organizem para disputarem as provas em que estão inseridos; se não são solidários com os outros clubes da competição, por que motivo estes cedem sempre?! Deixem‑se de apelar ao interesse do futebol nacional. Do país. Isso é retórico, porque existem regulamentos que estipulam prazos, não são necessárias mais benesses. É que realizar estes jogos em dias de trabalho em zonas já por si despovoadas é dizer que não precisam de público.

É contraditório à própria competição e à criação de uma liga profissional.

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