“Uma História de ASSOMBRO”

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Abílio Travessas: Colaborador Dão e Demo - jornal digital

Por: Abílio Travessas

Foi no Público, na área da cultura, que li, da autoria de Lucinda Candeias, uma desenvolvida reportagem sobre as “relações diplomáticas entre Portugal e o Japão … numa exposição que condensa cinco séculos de história partilhada”. Um fim de semana em Lisboa para participar numa evocação/homenagem a Natália Correia, organizada, com cuidado e saber, pela amiga Margarida, permitiu ver esta exposição no Palácio da Ajuda. Impunha-se, dada a admiração pela cultura japonesa, começada com o cinema e os  grandes mestres e, depois, com uma ida ao “país do sol nascente”, convidados que fomos pelos pais do Miguel para o seu casamento com a Yuka. Cerimónia pelo  rito xintoísta, o fascínío do contraste com a nossa, católica, desde o oficiante à co-adjuvante, vestimenta própria; e, importante, todos os convidados, grupo restringido aos familiares e amigos mais próximos, a beberem o saké em pequenas taças, levadas aos lábios com os dedos das duas mãos. Depois, toda a cerimónia da boda, a noiva a mudar de quimono (shiromuku), os convidados a exagerarem na bebida – que não é socialmente reprovado – que iam servir as outras mesas…

Dez dias, programados para a época das cerejeiras em flor, possibilitaram um melhor conhecimento desta cultura tão diferente. A comida deliciou-me, à base de peixe, não fosse eu da “beirada do mar”, em sítios os mais diversos, desde o restaurante,  convidados pelos pais da noiva – dois anos antes tinham estado aqui na Póvoa, em nossa casa –,  sala reservada, onde pude beber  vinho, presumo italiano, servidos por gueixas,  tanta delicadeza que não se  confunde com subserviência – a restaurantes â beira da estrada e, mesmo, junto a um rio, como as nossas roulottes. Num dos restaurantes, sentados ao balcão, pudemos ver a destreza dos cozinheiros na confecção das iguarias.

Não podia deixar de visitar, em Nagasaqui, o memorial da bomba atómica, lançada pelos americanos, no final da 2ª guerra. Ninguém pode ficar indiferente perante tal crime contra a humanidade,  milhares de mortos naquele segundo eterno e os que pereceram nos anos seguintes. E, pasme-se, era a segunda, Hiroshima já tinha testado os terríveis efeitos desta arma letal sobre uma cidade.

Regressemos à exposição a ver com detalhe e sem pressas. Os portugueses chegaram em 1542/43, talvez Fernão Mendes Pinto e mais dois companheiros, Cristóvâo Borralho e Diogo Zeimoto, hábil arcabuzeiro e introduziram a espingarda em Tanegashima. A espingarda, que se difundiu rapidamente pois em 1556 já havia mais de 300 mil, permitiu que um dos senhores da guerra, Oda Nobunaga (o jesuíta Luís Fróis deixou-nos um perfil deste guerreiro que nos surpreende: “não acredita em nada que não possa ver com os próprios olhos; despreza deidades xintoístas e budistas e todas as formas de idolatria e superstições”) esmagasse os opositores e, na Batalha de Nagashido (1575), empregasse o tiro contínuo, dividindo os espingardeiros em vários grupos, disparando rotativamente.  Táctica que só chegou à Europa muito mais tarde.

Desde biombos nanbam representando a chegada dos portugueses, os nanbanjin, bárbaros do sul, à cartografia, que tem desenvolvimento exponencial  e permite que os japoneses tenham a ideia da posição do país no mundo; um “conjunto de arreio e uma sela de cavalo de elevado valor artístico, assinado por um mestre em selas”; um par de estribos, “cada estribo apresenta uma cruz vazada, testemunhando a aliança de alguns grandes senhores japoneses com a missão cristã”, do final do séc. XVI. E muito mais, muito mais!

Passou há pouco um filme, Silêncio, de Scorcese, que se debruça sobre o martírio de cristãos no Japão. Não há aqui espaço para grandes divagações. A expulsão dos jesuítas e dos portugueses, cem anos depois da chegada, deveu-se à unificação do território e “a Companhia de Jesus era vista como um possível contrapoder” podendo constituir uma ameaça, assim como o cristianismo, “ causador de tensões sociais que podem pôr em causa a unidade do Japâo”.

PS:  as citações saíram da notícia do jornal Público sobre a exposição.

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