Urgências.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Entrou em casa a falar para o bengaleiro. Deixou o guarda-chuva e o chapéu a baloiçar sem castigar, como de costume, o tapete da entrada com a raspadela que antecipava o encontro dos sapatos com os chinelos, no regresso ao sossego e descompressão dos dias agitados.

Vinha a falar sozinho, com o sorriso feliz de quem parecia ter alcançado a meta de muitos anos de sonhos e lutas. Parecia ter sido promovido no emprego ou ganho o prémio da lotaria.

Aquela estrada de acidentes e promessas, aquela via dolorosa de cada dia, iria ser melhorada.

Ao fim de tantos anos e alterações, depois de tantas recusas e negações, de tantos projetos adiados, as suas dores de cabeça para chegar ao trabalho e regressar a casa, ao fim do dia, tinham fim à vista.

Como os moradores da capital e das cidades do litoral, ia ter menos empecilhos no seu caminho para o trabalho. E os cabelos brancos, criados na fila de trânsito engalinhado pareciam regressar à cor inicial e restituir-lhe o tempo de vida perdido naqueles escassos vinte quilómetros.

Não se podia queixar de tantas horas perdidas no trânsito para atravessar pontes e circulares, mas não aguentava a confusão de circular a passo de caracol e demorar quase tanto tempo a chegar à cidade mais próxima como à capital de outros distritos ou à fronteira do país.

Sentia-se, por isso, velho, abatido e injustiçado.

Afinal, os seus impostos só serviam para construir auto-estradas, vias rápidas, linhas de comboio e de metro, travessias de barco e pistas para aviões, noutras paragens, para servir, unicamente, quem deixou a sua casa da aldeia ao abandono para viver no conforto da cidade?

A notícia restituía-lhe o seu direito de cidadão. Renascia-lhe o brio e o gosto da vida independente, longe das almofadas da cidade e dos desfiles a contar anos, meses e dias.

Partilhou a euforia com a mulher e os filhos, esquecendo as vezes que o assunto fora notícia e os seus anos de adiamento. Agora era a palavra firme de um ministro.

Agora era um ministro a dizer e garantir que a melhoria estava classificada como urgente e prioritária. E palavra de ministro, mesmo não sendo palavra de rei, tem de ser levada a sério.

Bailavam-lhe certezas que a prioridade e urgência, na boca de um ministro, nunca podiam iludir nem ser adiadas, mesmo que a vaca quisesse tossir e desfilar na avenida.

Bem tentava a esposa servir o jantar para fugir ao assunto. Bem ripostavam os filhos com as peripécias de mais um dia de greve na escola.

Nada lhe resfriava o entusiasmo. O jantar e as greves acontecem todos os dias. As más notícias enchem sempre televisões e jornais. O fim daquele calvário era outra coisa. Mereceria uma bebida esquisita para comemorar, não fosse a responsabilidade do trabalho, no dia seguinte, proibir abusos e devaneios. Quase merecia a promessa antecipada do seu voto, em próximas eleições, numa reconversão da cor e do sentimento político.

Já estava por tudo. Importante, mesmo, era ter a certeza de que, desta vez, nada ia falhar.

Mais discretos e prudentes, os filhos, para esvaziar tanta expectativa, relembravam o perfil em faixas largas prometido também por um ministro, com pompa e circunstância, e logo esquecido e abandonado; a enorme quantidade de alterações e de aproveitamento daquela mesma estrada; as mentiras partilhadas, que chegaram a misturar, no mesmo saco, estradas e linhas férreas, apenas para iludir e calar a necessidade e urgência de ligar o interior ao litoral e de nivelar o desenvolvimento teórico e harmonioso de um país a três ou quatro velocidades.

Disfarçadamente, antes de ir dormir, foi pesquisar o significado preciso daqueles termos, confrontando o dicionário com a ênfase do discurso do senhor ministro.

E descobriu que prioridade, na boca dos políticos, nem sempre quer dizer preferência ou primazia sobre qualquer outra obra, sempre sujeita aos contratempos de verbas e cabimentos. E ficou de cócoras ao reconhecer que a urgência, por ser uma necessidade imediata, não admite demoras nem adiamentos, depois de tantos que já houvera.

Sentiu pesadelos e revolta por tanta ingenuidade. Veio-lhe imediatamente à lembrança o cartaz amarelo e gasto pendurado na secretaria do seu quartel, no tempo em que prestara  serviço militar obrigatório:

“Não há nada urgente que não possa esperar quinze dias e, se for muito urgente, um mês”.

A mentalidade de quem manda e governa não conseguiu evoluir nem alterar-se ao longo dos anos e dos tempos. Apesar de tantas pedradas, tudo continua igual ou pior.

Quem manda, pode, exige e gasta sem controle. Quem não manda, obedece e cumpre. Ponto!

Assim começaram todas as ditaduras e regimes absolutos.

“Como era no princípio, agora e sempre” !…

Uma qualquer estrada, por muita falta que faça, por maiores que sejam as expectativas e dificuldades, pode esperar o tempo que calhar.

Já se viu que não é por elas ruírem, provocarem mortes e acidentes ou se incendiarem que as promessas e palavras se alteram.

O povo continua sereno.

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