Vamos viver com menos?

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Inês Pina: Colaboradora Dão e Demo

Por: Inês Pina

Como estão as vossas finanças, nesta época de saldos? Ah, fica uma dica, olhem com atenção para os descontos! As marcas são trafulhas! No entanto, não vou falar sobre isto. Nem sou especialista de dicas de poupança.

Quem me conhece mais de perto, tende a dizer que sou para o forreta. De facto, não sou dada a gastar dinheiro. Porém, desde que tenho a minha total independência financeira fui-me abrindo a mais gastos.

Sou das primas mais novas, logo fui herdando muita roupa. Em garota delirava quando me davam roupa “nova” à medida que fui crescendo sentia falta de roupa mais ao meu “estilo”. O que é certo é que sou do tempo em que ganhar roupa nova era apenas no natal e na páscoa. Algo que já nem existe, hoje compramos roupa para nos mantermos a par da fast fashion, porque está em saldos ou porque não temos nada para vestir, apesar do armário cheio!

Se quando começaram a cair os primeiros ordenados delirava com o meu poder de compra. À medida que a vida se foi desenhando dou por mim a refletir sobre as minhas escolhas. Repito que não sou (melhor, não me considero) muito consumista. Mas estou embrenhada neste ciclo do consumismo.

Mudei de casa e estou numa casa maior, mas quero ter muito menos coisas. Aliás, quero ter mais: tempo, espaço, experiências, paixão… Não virei hippie, continuo muito terra a terra. Contudo, tenho uma palavra a ecoar-me na mente: minimalismo.

Cada pessoa defino o minimalismo á sua semelhança. No início pode ser apenas limpar o excesso do guarda-fatos. No meu caso, comecei pelos saltos altos. Não sei bem em que época achei que devia ter saltos. Mas tinha. Não me fazem sentido no quotidiano. Estavam parados a ganhar pó. Literalmente, estavam numa estante e todas as semanas lhes limpava o pó.

Depois foram camisolas e casacos que estavam parados e que eram usados apenas uma vez por ano. Como disse, não acho que tivesse muita coisa, mas guardava muita coisa durante muito tempo.

A “limpeza” que começou na roupa foi-se estendendo a todo o resto. Quando eliminamos o desnecessário vamos sentindo as vantagens de viver com menos. É um efeito bola de neve, procuramos uma forma de viver mais simples.

O facto de termos coisas espalhadas por vários compartimentos, ajuda a que não tenhamos a real noção do que temos. E eu, até sou daquelas pessoas que sabe o que tem nas gavetas e nas caixinhas. O que se passa é que muitas vezes ficam ali anos sem que lhes toque. Agora, gosto de olhar para elas e imaginar quem lhes poderá vir a dar-lhe uma nova vida.

O minimalismo é um processo e eu nem sequer sou a melhor pessoa para falar disto, sou só uma curiosa da temática. Vejam algo específico no meu caso. Amo ler, nem sempre comprei livros. Fazia requisições. Depois fui comprando, formam-me oferecendo. Hoje tenho alguns. Porém, tenho uma especificidade – odeio reler livros. Ficam parados nas estantes dou por mim a ir à Internet retirar citações dos livros que li, pois não volto sequer a folheá-los. Conclusão, estou a desfazer-me de alguns. Tenho dado ou levado para sítios de partilha. Faz-me todo o sentido que os livros circulem, aqueçam almas, levem a viajar como me fizeram a mim. Claro está, que para certas pessoas, este pode ser um objeto intocável. A essas pode haver desapego mais fácil com outras coisas.

Uma coisa é certa, acredito que não dar tanta ênfase ao material, acaba por nos abrir para o que realmente importa.

Esta temática, não é propriamente nova. Surgiu na arte na década de 20, onde os artistas seguiam o preceito de usar poucos elementos visuais nos seus quadros. Depois, foi ganhando forma e evoluindo para o comportamento da sociedade. Não se trata de construir uma sociedade alternativa, antes combater o excesso de consumismo dentro do sistema. A questão não é o capitalismo, pois não sejamos hipócritas, vivemos dele. O foco é o capitalismo selvagem.

Sobre esta temática recomendo e, muito, o documentário True Cost, que coloca em cheque toda a indústria da moda tal como a conhecemos e alimentamos. Sim, quando falo na indústria da moda, não falo da alta costura, falo da H & M, da Zara, da Berskha e por aí fora. De marcas que democratizaram a moda, é um facto, mas que tornaram a indústria nefasta para o ambiente e para as populações. Há quem pague um preço muito elevando para que nós possamos comprar a camisola a 19,99 no fim de um mau dia de trabalho e achamos que temos direito a um “miminho”.

Posto isto, tenho-me me vindo a lançar o desafio de ter menos coisas, de comprar porque preciso e não porque está em promoção ou porque é muito giro. Pois, acredito na máxima que defende que apenas quando perdemos tudo é que somos livres para fazermos qualquer coisa. Nunca devemos permitir que o que temos acabe por nos possuir.                 Agora vão lá dar uma vista de olhas aos objetos/roupas que estão parados e dêem-lhes uma vida nova. Há sempre quem dê mais uso que nós.

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