Veredas sem retorno

0
289
António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Saiam-lhe palavras atamancadas, como se não houvesse tempo de dizer tudo o que queria. Descia, rua a baixo, hesitando os passos, a medir palavras, a recitar versos, a falar com as montras e paredes, como se um mundo abstrato lhe sugerisse o fio de um discurso que só ele era capaz de entender.

Todos os dias, matematicamente, em pontualidade britânica, voltava a descer a rua como parte de algum sistema mecânico, ligado a impulsos paranormais, que deixam sem resposta o interesse e capacidade dos analistas do comportamento humano.

De Verão ou de Inverno, desafiava os manequins das montras iluminadas, criticando as suas poses, vestes e penteados como se acreditasse que eles o poderiam acompanhar naquele circuito noturno e nos protestos que ia espalhando pela calçada.

Ria-se com a frieza dos figurinos e com as etiquetas de preços que pintavam cada peça de roupa, dando a todos o nome de gente conhecida na alta roda da política e da sociedade local.

Cuspia para o chão e raspava as alpercatas, simulando investidas contra as figuras mais sonantes e conhecidas, protestando contra a falta de resposta às suasquestões.

Desafiava toda a gente a repetir, ali, na sua presença, o que diziam aos jornais e na televisão e a explicar como se pode gastar tanto dinheiro em pistas para corridas e aviões e se deixa os doentes sem cama nem tratamento, a morrer nos hospitais, e os pobres sem um cobertor e uma sopa quente.

Baixava a cabeça e comentava discursos e promessas que lhe tinham sido garantidas, em recentes campanhas, lamentando a rebaixa de preços com que ali se vendia o cumprimento de uma palavra honrada. Aquelas etiquetas na lapela obrigavam-no a jurar, de punhos cerrados, que nunca mais na vida iria vender o seu voto, por maiores que fossem as promessas.

Não se conformava com a ideia de ter de vestir um colete para que alguém fosse capaz de ouvir e entender o seu discurso e os seus protestos. Tão pouco sentia competência e coragem para empunhar uma bandeira ou um megafone e reclamar a contagem do tempo que passa na rua, sem apoio e atenção de ninguém, ou exigir requalificação da carreira na orientação, partilha de alimentos e cuidados que vai dispensando aos novos deserdados que, todos os dias, aparecem na rua, a engrossar a fileira dos dependentes e sem abrigo. Nem admitia fazer greve, porque o seu estômago lhe exige coerência e não o deixa alinhar nessa aventura.

Mesmo só, triste e abandonado, sente dentro de si, a competência e dignidade de ministro ou juiz, de funcionário do Estado ou elemento das forças armadas, de professor ou enfermeiro, de oficial e cavalheiro, de curador e conselheiro.

Ninguém lhe reconhece tanta capacidade. Mas, na sua audácia, desafia toda essa gente a recitar de cor, como ele, versos de Bocage ou de Camões, sermões do P. António Vieira ou encenações e récitas de Gil Vicente. Sente-se ofendido, porque, como muitos outros, podia ter ido à feira da Ladra comprar cursos e diplomas ou entrar em negociatas duvidosas, de grandes proveitos.

Mas é do tempo em que, na escola e na família, se aprendia a ser honesto, sincero e vertical.

Perante o silêncio comprometido e a indiferença estática daquelas figuras de cera especadas na montra, volta-lhes as costas, baixa as calças e dá três palmadas sonoras na redondeza das ancas escanzeladas.

E partiu, aliviado. Ainda olhou para trás, mas as figuras nem pestanejaram. Continuavam, carregadas de etiquetas, a atrair com descontos o olhar de quem passava.

Apertou a medalha que trazia ao peito e seguiu o caminho de todos os dias, enquanto lembrava, no desaguisado do seu discurso, os tempos felizes da aldeia e a memória da professora que o ensinou a ler, a escrever e a contar. E a ter respeito.

No vão da escada, recompôs os cartões e jornais e esperou que chegasse o amigo fiel, companheiro de todas as noites, para repartir com ele a conversa e algum aconchego.

Ainda beijou a medalha e as memórias, esperando que a noite lhe apagasse o desgosto.

O cão chegou, carregado de histórias e saudades, lambendo-lhe demoradamente as mãos e a cara, numa cerimónia de perguntas e abraços, na única troca de carinhos que lhe resta.

Os discursos inflamados, o circo, promessas e ilusões vão continuar a ganhar mercado e audiências. A realidade dorme ali, naquele vão de escada, amontoada entre jornais velhos e acordes melancólicos de fado, à espera de melhores dias.

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.