Vidas em risco.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Não é só o planeta que corre sérios riscos de implosão.

A vida na Terra e, por consequência, também a vida humana acompanha a tendência de desagregação em cada dia que passa.

A extinção de espécies é visível e notória. Basta levantar a cabeça e contar as árvores que secam e morrem, as aves que desaparecem, os peixes e animais que deixaram de povoar os rios e mares, ou os campos e florestas.

Já nos espanta que haja vacas a pastar livremente e a produzir leite. É normal e corrente aceitarmos que as crianças, na simplicidade do seu conhecimento, nos digam que o leite se produz no frigorífico. Qualquer dia, os adultos dirão o mesmo, porque a cultura do telemóvel não ensina tudo. Os pastos vão escasseando, a pastorícia morrendo nos incêndios e o cultivo dos campos perdendo braços e manobradores.

Em tempos, as aldeias eram expressão da vida em comum, onde cada um supria a necessidade do outro, emprestando o seu tempo e serviço, sendo recompensado da mesma forma nos dias seguintes, quando chegasse a sua vez de precisar de ajuda.

Decorreu nesta simplicidade a vida de muitas gerações, respondendo à tendência gregária do género humano, desde a saída das cavernas.

As aldeias com melhores condições de vida atraíram famílias inteiras, vindas de longe, que se fixaram nos arredores, alargando o perímetro e mantendo costumes e tradições.

E a aldeia cresceu e virou cidade, onde a cultura de cada bairro se misturou com outras e foi, pouco a pouco, desaparecendo, até se fundir na amálgama das diversas culturas e gerar novos grupos e razões de vida, numa sociedade alargada e plural.

Todos se sentiam mais felizes no contributo de construção da cidade, porque as artes e profissões lhes garantiam trabalho e dignidade.

As velhas aldeias – “a santa terrinha”- perderam a vida e o protagonismo até ficarem sem alguém que defendesse a integridade dos costumes ancestrais que identificavam a sua forma de sentir e de viver.

Depressa o confronto de hábitos e formas de vida entre as cidades e aldeias ergueu montanhas de dificuldades para quem teimava em ficar nos lugares “onde o diabo perdeu as botas”. Respirava-se ar puro; bebia-se água cristalina; ouvia-se a música das fontes e dos pássaros, do vento e da trovoada. Mas perdia-se um dia inteiro para ir a pé à vila, “às mercas” ou ao doutor, porque carros ou transportes não havia.

As estradas, que entretanto lhes deram de presente, facilitaram a invasão de vigaristas e burlões, vindos de longe, que tentam sugar o resto de simplicidade que por ali ficou. Abrem-se frinchas e postigos para espreitar o perigo, quando aparecem estranhos.

Como nas cidades, desconfia-se da própria sombra.

E, nas cidades, deixou de se jogar à bola no jardim, de se dizer bom dia aos vizinhos, de se levar o saco das compras à vista ou o relógio no pulso, com medo dos roubos e assaltos.

Os simples e raros moradores da aldeia vão dizendo como já diziam os seus avós: “quando se perde a vergonha, perde-se a crença e a esperança em melhores dias”.

Os pedantes e pretensos ricos, a viver na cidade, fecham-se em casa. Mas, quando saem para o trabalho e se apertam nos transportes, seguram as moeditas no bolso mais escondido para garantir a sandes do almoço. E quando regressam, espremidos e tristes, comentam as notícias de roubos, mortes e assaltos, que a televisão mostra, com uma frase de José Saramago:”o nosso sistema…permite fazer coisa nada democráticas…democraticamente”. E trancam as portas para conseguir dormir.

As crianças começam a perceber que a sua vida corre perigo todos os dias.

Os adultos sabem disso e não espantam o receio.

Quando se matam pessoas com tanta facilidade e frieza, quando se rouba o suor e a vida sem respeito por ninguém, pouco nos vale gritar “Ó da guarda!…” Porque ninguém nos ouve.

Viver em liberdade é cada vez mais perigoso e difícil.

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