Vila Morena.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

A Lua Cheia da Primavera trouxe-nos a doçura da Páscoa, a calma e tranquilidade para avaliar o peso das nuvens negras e alguma paciência para enfrentar o céu carregado de chuva, que se decidiu a inundar os campos e a retardar as sementeiras.

Logo a seguir, os cravos e discursos inflamados disfarçaram a terra alagada dos nossos passos, fazendo acreditar que o mau tempo já lá vai e que a alegria e felicidade de 45 anos estão para durar, sem rugas nem enfado, em permanente Lua Nova.

Os foguetes e canções, a vila morena e os punhos cerrados ajudam a relembrar a libertação e a terra da fraternidade, onde será possível viver à sombra dos bons costumes sem querer saber de idades ou de preconceitos. Enche-se a boca e o peito de medalhas e competências, como se fosse possível meter o arado à terra sem que os campos se libertem da lama e das ervas daninhas favorecidas pelas águas abundantes e incontroladas destes anos de incerteza.

Incerteza que rima bem com esperteza.

Na esperteza desta incerteza, continua a faltar coragem de separar as águas e de as fazer correr por linhas bem definidas, levando-as a lugar certo e seguro sem negar ou combater o seu curso natural.

Já se esqueceu a travessia do Mar Vermelho. Já poucos se lembram que foi preciso muita coragem e determinação para enfrentar aquelas águas e atravessá-lo a pé enxuto.

Contentam-se com cravos e cantigas, a colher o maná de lugares ao sol das amplas liberdades, ou a viver à sombra da azinheira de subsídios ou bons salários, e a cultivar codornizes, vendendo-as por frangos ou avestruzes a quem, porventura, se contenta com as migalhas do pão que o diabo amassou.

Para esquecer as agruras do deserto e as dificuldades de percurso basta-lhes a frescura e simplicidade do rio ou das fontes e a tranquilidade dos campos, nas aldeias. Sabem-se excluídos dos planos de quem pinta todas as terras de lindas cores e sorrisos, dos que sonham com mesas fartas, enganadas em pensões de miséria e serviços de conta-gotas. Basta-lhes o bom dia dos poucos vizinhos e o conforto do sol que os acompanha e anima a cada hora. Basta-lhes a chuva e a certeza de serem livres, à sua maneira, e de poderem contradizer, no dia a dia, as conversas arrevesadas dos que se julgam reis por terem um olho para governar.

A vila morena, todas as vilas e cidades, começam a não sentir a força das cantigas das aldeias da roupa branca nem a frescura da água fria da ribeira.

Pior que tudo será o que pode acontecer depois do adeus, quando o povo simples virar as costas e deixar de cultivar as batatas e as couves.

Não será por decretos e parcerias ou cantigas e flores que elas vão aparecer no mercado.

E os vivas à liberdade, por muitos foguetes ou punhos que levantem, precisam de pão para repartir com todos e acabar com tanta desigualdade.

Só assim se pode  acreditar que, realmente, é o povo quem mais ordena.

É urgente ver para crer.

Só depois os cravos e cantigas voltarão a ter sentido e cor.

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