Viseu, a melhor cidade para se viver: entre a ficção e a realidade!

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Ana Cláudia Salgueiro

Por: Ana Cláudia Salgueiro

Há alguns dias atrás, conversava com alguém que me perguntava de onde é que eu era. À resposta “Viseu”, seguiu-se a recorrente afirmação: “Viseu é uma cidade muito bonita. Até foi considerada «a melhor cidade para se viver»!”. Como estava a falar com um não-beirão, reservei a minha opinião para mim e apenas sorri e acenei. Mas continuamos mesmo a ser a melhor cidade para se viver?

Nos últimos dias, foi publicado o “Rating Municipal Português (RMO) 2019”, elaborado pela Ordem dos Economistas, que pretende avaliar o desempenho dos 308 municípios portugueses, em 2018, em quatro dimensões: (i) governança, (ii) serviços aos cidadãos, (iii) desenvolvimento económico e social e (iv) sustentabilidade financeira, apresentando dados comparativos de 2016.

Viseu, a cidade que é até hoje conhecida como “a melhor para se viver”, teve um desempenho, no respetivo estudo, que nos deveria fazer pensar seriamente que futuro queremos para o nosso concelho. Se, em 2016, Viseu surgia em 28º do ranking global, em 2018, Viseu cai para o 46º, deixando de constar nos 30 melhores municípios do país.

Ao nível dos quatro vetores avaliados em específico, Viseu surge em 16º nos serviços aos cidadãos (em 2016, surgia em 13º), em 61º na governança (em 2016, em 79º), em 93º no desenvolvimento económico e social (em 2016, em 75º) e, finalmente, em 171º na sustentabilidade financeira (em 2016, em 201º).

Apesar de muitas pessoas acreditarem que Viseu é considerada “a melhor cidade para se viver”, e de o executivo autárquico usar e abusar desse título como imagem de marca, a verdade é que tal honra, atribuída pela DECO, apenas nos pertenceu em 2007, em 2012 e em 2018. Embora, se olharmos para o estudo da Bloom Consulting Portugal City Brand Ranking, publicado há poucas semanas, que analisa a performance de marca dos municípios portugueses, nas áreas do Turismo, Negócios e Talento, Viseu surge apenas em 20º lugar (em 25º nos “negócios”, em 28º no “visitar” e em 12º no “viver”).

Os números começam a revelá-lo, mas todos nós, viseenses, notamos diariamente:  Viseu está a ficar uma cidade envelhecida, já não tão limpa nem tão “cidade jardim” como nos orgulhávamos, sem capacidade de captação de investimento e de emprego. Aliás, basta fazer uma visita, ao domingo, à rodoviária, para vermos a quantidade de jovens estudantes e trabalhadores que vemos entrarem nos autocarros. Toda a gente tem familiares, amigos, filhos de amigos e netos de amigos a viver e a trabalhar fora. Viseu está a revelar uma grande incapacidade para conseguir que os seus jovens, após terminarem os estudos, regressem para aqui desenvolverem a sua atividade profissional.

Daí que, e volvendo ao “Rating Municipal Português”, não seja de estranhar que Viseu tenha piorado no desenvolvimento económico e social. Porque, na verdade, é absolutamente desconhecido qualquer plano económico-social que a Câmara Municipal de Viseu tenha para o nosso concelho. A que acresce o facto de, apesar de frequentemente termos conhecimento que uma nova empresa abre nos concelhos vizinhos, tardam em chegar boas notícias a Viseu, que não passem apenas e só do lançamento da primeira pedra.

Esta realidade já não se coaduna com o aforismo que parece ter ficado nas mentes de “melhor cidade para se viver”, mas que a crueldade dos números vem questionar.

Porém, nós beirões somos, por natureza, muito defensores e muito ciosos da nossa terra. Pelo que, não tenho dúvidas, no momento certo, saberemos impedir que continuem a degradar a nossa cidade e, tal como o poeta, afirmar: “sei que não vou por aí!”.

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