Voltem depressa

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

“O farol da ousadia, da verticalidade e do bom senso, que iluminou séculos e gerações, escondeu-se debaixo da rasa da cor política”

Qualquer referência ao passado entra, quase sempre, no catálogo do saudosismo ou no receituário de quem precisa, urgentemente, de uma visita ao médico para correcção da visão ou de uma dieta para reforçar os índices de memória.

Parece que as etiquetas de atraso e de pobreza ultrapassaram os prazos de validade, quedando-se em tempos antigos, e que, a partir da revolução dos cravos, o céu se abriu em bênçãos e nos presenteou a todos com o maná de riqueza e bem estar que nos deixa a navegar num mar de rosas ou no jardim celeste, onde tudo é felicidade e alegria, onde tudo se alcança com a facilidade de um gesto ou do olhar, sem obrigar ao mínimo esforço.

O farol da ousadia, da verticalidade e do bom senso, que iluminou séculos e gerações, escondeu-se debaixo da rasa da cor política, apagando ideias próprias e atitudes sérias e independentes. Ninguém mais se atreveu a falar da seriedade e rigor de reis e governantes de outros tempos. Todos foram queimados na fogueira do esquecimento, com medo das bruxas e arrenegos da noite dos tempos obscuros.

Nem os cantoneiros, alfaiates, sapateiros e guardas florestais escaparam à razia.

De geração espontânea, abriu-se o tempo dos iluminados, dos sábios, ricos e auto-suficientes.

Encostaram-se sacholas e arados; apagou-se a luz da candeia e partiu-se o candeeiro de petróleo. Fecharam-se escolas na aldeia, obrigando à espera e ao silêncio quem por lá ficou.

De repente, o anonimato das vilas e cidades mudou hábitos, regras e comportamentos de quem sempre se pautara pelo brio e dignidade, pelo apego ao trabalho, pelo respeito dos outros e de si próprio.

E a família foi a primeira a desmantelar-se, sofrendo os golpes mais dramáticos de que há memória, ao ponto de negar os seus laços e abraços.

“Em vez dos cantoneiros e guardas florestais, nasceram, como míscaros, doutores e engenheiros, técnicos de prevenção e segurança, peritos e comissões de deputados”

Em vez dos montes, onde se dizia que, pelo peso da idade, se abandonavam os velhos, encheram-se os bancos do jardim de sociedades anónimas de bisca lambida, onde se engana o tempo e a solidão.

Em vez dos recreios barulhentos, passou a haver agressões e ataques, com guardas e vigilantes à porta das escolas, sem que alguém tenha culpa ou responsabilidade.

Em vez de alunos mais aplicados, o nivelamento obriga toda a gente a marcar passo para garantir a todos bom desempenho e igualdade de oportunidades.

Em vez de “tudo o que musa antiga canta”, em vez da dedicação e competência, premeia-se a mediocridade e o “sim, senhor” de quem entende que tudo está bem, embora se saiba que “para pior, já basta assim”.

Em vez dos cantoneiros e guardas florestais, nasceram, como míscaros, doutores e engenheiros, técnicos de prevenção e segurança, peritos e comissões de deputados que avaliam os desastres e promovem inquéritos, quando nada mais há a fazer, senão lamentar as consequências e chorar vidas perdidas e mortes desnecessárias.

Com as primeiras chuvas, os lençóis de água tomaram conta das estradas, por falta de  limpeza e escoamento.

As valetas entupidas mostraram o espelho e sentido de responsabilidade que por aí vai, em todos os sectores da governação.

A falta de cuidado e interesse em mantê-las limpas e funcionais revelam a importância única do dinheiro no bolso, ao fim do mês, durante anos a fio, sem contrapartidas de trabalho.

Pouco mais se pode esperar quando um ministro não sabe nem quer saber o que se passa na sua área de governação ou se borrifa para os estudos e relatórios que lhe chegam à mão.

Não interessa desmantelar a rede ou prender os corruptos e ladrões, quando o crime, por falta de penas adequadas, parece compensar e dar glória, a começar nas altas instâncias.

Apesar do pouco que se dizia fazerem os cantoneiros e guardas florestais, apetece dar-lhes vida e restituir-lhes os seus canteiros e postos de trabalho, para ajudar a manter as estradas mais limpas e seguras e as florestas sem tantos aviões com rabos de palha e ginetes rampantes com cevada ao rabo.

Voltem depressa!…

Precisa-se de alguém que saiba vigiar a floresta e conservar limpas as ruas e valetas do nosso burgo.

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